Fatores de Relevância Vivenciados pela atual Conjuntura
Econômica
Thiago Flores
Um dos fatores, a
confiança do empresário industrial, registrou a maior alta desde
fevereiro passado, sugerindo recuperação da produção industrial
no final de 2010, após vários meses de estagnação. No mesmo mês
de referência, a confiança do consumidor apresentou o primeiro
recuo nos últimos nove meses, bastante influenciado pela
deterioração das percepções em relação às expectativas de
inflação. Ambos os indicadores de confiança estão em patamares
elevados, mas a evolução das percepções dos consumidores nos
próximos períodos gera preocupações, sobretudo em um ambiente no
qual pressões inflacionárias de curto prazo estão presentes.
Um segundo fator, a piora das expectativas de inflação entre
consumidores, também tem sido observada entre analistas e tem
sido capturada na curva de juros. A alta da taxa Selic nesta
semana pelo Comitê de Política Monetária (Copom) deve ser
interpretada como parte das ações para impedir a deterioração do
cenário inflacionário e, com isso, para coordenar as
expectativas dos agentes. Quanto maiores forem os esforços
conjuntos das políticas fiscal e monetária nesse combate,
maiores serão as chances de impedir uma deterioração das
expectativas de inflação capaz de afetar negativamente as
decisões de longo prazo dos agentes econômicos.
Não se pode deixar de lado a China, que ao ter expandido mais
de 10% no ano passado, confirma o quanto sua economia está
aquecida, mas ressalta também as transformações em curso pelo
país, que têm imposto uma série de desafios para o governo, com
destaque para a atual árdua tarefa de controlar a inflação sem
sacrificar o crescimento. Esta difícil equação, por ora, parece
não ter uma solução clara. Ainda assim, acredito que a aposta
mais factível será conviver com uma inflação um pouco mais alta,
mantendo as condições monetárias e creditícias sob controle,
evitando um sobreaquecimento da economia, mas não que requeira
uma desaceleração drástica.
Outro fator é o PIB, que em 2011 espero que cresça no mínimo 9%
e que a inflação ao consumidor suba 4,5%, sendo que o primeiro
semestre deste ano será marcado por uma moderada desaceleração
da atividade, mas com a inflação ainda rodando próxima a 5%.
Ainda que muitos analistas argumentem que a inflação será
prioridade das políticas econômicas em 2011, levantando riscos
consideráveis para o crescimento, que poderiam levar a uma
correção do mercado como a verificada no segundo trimestre do
ano passado, a aposta central continua sendo a de um ajuste
gradual, com riscos de desaceleração drástica bastante
limitados.
Neste sentido, a reação negativa dos mercados – em especial da
bolsa da China – merece atenção, mesmo que não acredite que esta
preocupação se concretize. Mas, justamente por apostar em um
ajuste gradual, com anúncios se mantendo presentes ao longo do
primeiro semestre, acredito que a volatilidade do mercado ficará
elevada nos mercados, já que a resposta sobre a inflação e a
atividade será sentida vagarosamente.
Destarte, um fator de preocupação é a aceleração das
expectativas para o IPCA em 2011 que não sugere alívio para o
cenário de inflação. A continuidade de resultados pressionados
dos índices de inflação, divulgados nas últimas semanas, tem
mantido a tendência de elevação das expectativas para este ano,
conforme mostrado pelo Relatório Focus divulgado há pouco pelo
Banco Central, referente à semana até 21 de janeiro de 2011.
Assim, mantendo-se como destaque da divulgação, a expectativa
para o IPCA deste ano se elevou de 5,42% para 5,53%, enquanto
que, para 2012, a mediana se manteve estável no centro da meta,
em 4,5%. Em relação ao crescimento do PIB, as expectativas
permaneceram estáveis em 2011 e 2012, ambas em 4,5%. Para a taxa
de câmbio, as projeções para 2011 permaneceram em R$/US$ 1,75,
sendo que alguma depreciação do real, para R$/US$ 1,80, continua
sendo esperada para 2012. Por fim, a despeito da alta de 50 b.p.
anunciada semana passada, as expectativas para a taxa Selic para
2011 se mantiveram em 12,25% – mantendo a visão de que o ciclo
total de aperto será de 150 b.p.–, e as expectativas para 2012
também não foram alteradas, ficando em 11,0%.
Segundo a FGV há pressão altista vinda dos reajustes de
educação e transportes, verificada no IPC-S da terceira semana
de janeiro e que continuará presente nas próximas divulgações
dos índices de inflação ao consumidor. O IPC-S referente à
terceira semana de janeiro apresentou alta de 1,18%, mantendo
trajetória de alta ao longo deste mês. Entre os destaques desse
indicador estão os reajustes de educação e transportes, grupos
que apresentaram altas de 2,98% e 2,08%, respectivamente. Esses
vetores altistas continuarão influenciando o índice na próxima
leitura, mostrando arrefecimento apenas nos dados de fevereiro.
No sentido contrário, alimentação mostrou ligeira desaceleração
em relação à semana anterior, com alta de 1,64%, ainda um
patamar muito elevado.
Ainda que, em minha visão, as premissas de curto prazo
permaneçam intactas e favoráveis – por conta do melhor
endereçamento das questões fiscais nos países europeus e dos
sinais mais positivos vindos da atividade dos Estados Unidos e
da Europa – os mercados devem iniciar a semana na direção oposta
a esses fundamentos. Na abertura dos mercados internacionais, o
índice futuro da bolsa norte-americana (S&P) e as bolsas
européias devem operar em leve queda enquanto o dólar deve se
apreciar frente às demais moedas. Na aposta de uma reversão na
tendência da abertura, espero que a Bovespa apresente alta no
pregão de hoje e o real se deprecie frente ao dólar, ainda
considerando uma possível redução na liquidez nos mercados
locais, decorrente do feriado de São Paulo de amanhã. Além
disso, ao longo desta semana poderemos observar alguma
apreciação mais forte do dólar relativamente às demais moedas,
tendo em vista a divulgação do PIB do quarto trimestre dos EUA,
nesta sexta-feira, cujo resultado será favorável. Finalmente,
com relação ao mercado doméstico de juros futuros, espero
continuidade do movimento de abertura das taxas associado à
inflação de curto prazo ainda pressionada.
(*)
Thiago Flores é Administrador – EAESP-FGV, Mestre em Economia de
Negócios – EESP – FGV, Mestre em Finanças – IBMEC/INSPER –SP,
Consultor de empresas e CFO à FF Consult ®
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