Desemprego, Desaceleração da Economia, Nova Aceleração do IGP-M,
Resultados Fracos na Indústria, Retração de Crédito & Efeito
Líbia
Thiago Flores
Os indicadores do mercado de trabalho, divulgados ontem pelo
IBGE e pelo Caged, reforçam a visão de moderação do ritmo
expansionista da atividade econômica neste início de ano, quando
comparamos com o observado no segundo semestre do ano passado. O
destaque de janeiro ficou por conta de uma desaceleração tanto
da população economicamente ativa (PEA) como da ocupação,
favorecendo a redução da taxa de desemprego na margem, apenas
por conta da desaceleração mais intensa da PEA.
Pelo lado da renda, o rendimento médio real do trabalhador
alcançou R$ 1.538,30 em janeiro, nível 5,3% superior ao
observado em janeiro de 2010 (desacelerando em relação ao pico
de 6,5% em outubro de 2010); ao mesmo tempo a massa salarial
cresceu 8,4% na mesma base de comparação, após elevação de 9,4%
em dezembro. Somado a isso, foram gerados 152,1 mil empregos, em
termos líquidos, no primeiro mês deste ano, estando livre dos
"ajustes” de declarações enviadas fora do prazo definido pelo
Ministério do Trabalho e Emprego.
Para o restante do ano, espero continuidade da moderação tanto
na geração de emprego como no rendimento, em linha com a
desaceleração esperada para a economia como um todo.
O IGP-M de fevereiro registrou alta de 1% e acelerando em
relação ao resultado de janeiro (0,79%). Assim como os outros
IGPs vem reportando, a aceleração do índice é resultado de
pressões sobre os preços ao produtor tanto na parte agrícola
quanto industrial do índice. O IPA agrícola registrou alta de
2,75%, mais do que dobrando em relação ao resultado de janeiro,
dando continuidade à incorporação dos movimentos observados nos
mercados internacionais de commodities agrícolas. O IPA
industrial, por sua vez, mostrou elevação de 0,64%, também
acelerando em relação ao observado em janeiro. Além do reajuste
de minério de ferro ter sido incorporado nesse mês – importante
ressaltar que o pico do reajuste já ficou para trás -, ainda
observamos a volta dos preços de produtos alimentícios para o
campo positivo. No varejo, o IPC registrou inflação de 0,67%,
bastante inferior ao observado em janeiro, principalmente por
conta da dissipação do reajuste de educação e descompressão
substancial em alimentação. Por fim, o INCC – previamente
divulgado – reportou alta de 0,39%, com aceleração dos preços de
materiais, equipamentos e serviços. Para as próximas
divulgações, esperamos alguma desaceleração no índice,
inicialmente puxada pelo setor industrial.
Somando-se a outros indicadores já conhecidos que foram
divulgados no início do mês, os desempenhos apresentados pelo
consumo de energia elétrica e pelos indicadores da Fiesp,
referentes a janeiro, não alteraram nossa visão de que a
produção industrial irá registrar discreta elevação na margem em
janeiro. O consumo total de energia elétrica atingiu 35,812 GWh
no primeiro mês do ano, conforme divulgado ontem pela Empresa de
Pesquisa Energética (EPE). Este número representa um crescimento
de 6,5% sobre janeiro de 2010, com destaque para as regiões
Sudeste e Norte, com expansão de 7,5% e 7,3% respectivamente. As
demais regiões apresentaram taxas de crescimento ainda
significativas, como 5,7% para a região Centro Oeste, 5,3% para
a região Sul e 4,4% para o Nordeste, esta última região com um
crescimento inferior devido à parada de atividade no setor
químico e pelo encerramento da atividade de uma indústria de
alumínio na Bahia. Em relação ao consumo por classe, o comércio
apresentou a maior taxa de expansão em relação a janeiro do ano
passado, de 7,0%, seguida pelas classes industrial e
residencial, com 6,6% e 6,5%, nesta ordem.
Além disso, a produção industrial de São Paulo mostrou expansão
de 0,3%, segundo o Indicador de Nível de Atividade (INA), na
série livre de influência sazonal, divulgado ontem pela Fiesp.
Em linha com os resultados mais fracos acumulados desde meados
do ano passado, o nível de utilização da capacidade instalada
recuou no primeiro mês do ano, passando de 83,1% em dezembro
para 82,8%, na série com ajuste sazonal. Interessante também
notar que a expectativa dos empresários, conforme apontado pelo
Sensor Fiesp, continuou em recuperação, atingindo 54 pontos em
fevereiro ante 50,2 pontos registrados em janeiro.
As operações de crédito mostraram moderação em janeiro deste
ano, refletindo as medidas macroprudencias anunciadas em
dezembro do ano passado, que impactaram a expansão das
concessões. O saldo dos empréstimos bancários, incluindo
operações com recursos livres e direcionados, totalizou R$ 1,715
trilhão em janeiro, acumulado alta de 20,3% nos últimos doze
meses, levando a relação crédito/PIB atingir 46,5%, ante 46,7%
em dezembro e 44,2% em janeiro de 2010. O destaque ficou com a
desaceleração da taxa de crescimento mensal do estoque de
crédito de pessoa física, que passou de 1,3% em média nos
últimos três meses para 0,6% em janeiro ante dezembro (dados
deflacionados e dessazonalizados); tal movimento é respaldado
pela moderação observada no montante concedido diariamente.
Outra forma de identificar o efeito das medidas é mensurando o
impacto nas condições de crédito, principalmente através da
elevação das taxas de juros ao tomador, as quais também
mostraram deterioração. Por outro lado, como grande parte das
medidas está atrelada ao crédito à pessoa física, o crédito à
pessoa jurídica não apresentou impacto relevante no volume: o
estoque cresceu 0,7% no mês e as concessões médias diárias
aumentaram 3,8% na margem, apesar do crescimento, o nível ainda
não retornou ao pré-crise. De maneira geral, os dados de janeiro
relataram que as operações de crédito cresceram de forma mais
moderada, especialmente nas linhas relacionadas ao consumo, o
que deverá ser mantido nos próximos meses.
As bolsas internacionais devem operar no campo positivo enquanto
o dólar perder valor frente às demais moedas, revertendo parte
das perdas dos últimos dias. Estes movimentos refletem uma
melhora da percepção quanto aos impactos negativos da crise
política no Norte da África e no Oriente Médio, por conta das
declarações do governo da Arábia Saudita de que é capaz de
suprir uma possível restrição de oferta de petróleo por parte da
Líbia. Ainda hoje, com indicadores da economia dos EUA a serem
divulgados ao longo do dia, acredito que os dados não devem
reverter esta tendência, fazendo com que a bolsa brasileira
feche o dia em alta e o real sofra ligeira apreciação frente ao
dólar.
(*)
Thiago Flores é Administrador – EAESP-FGV, Mestre em Economia de
Negócios – EESP – FGV, Mestre em Finanças – IBMEC/INSPER –SP,
Consultor de empresas e CFO à FF Consult ®
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