Alta do IPCA de Janeiro preocupa ! Investimentos financiam
déficit ! Confira a confiança na indústria e as ultimas do FMI !
Thiago Flores
O resultado do IPCA-15 de janeiro ainda mostra pressões para a
inflação ao consumidor. Além das altas esperadas decorrentes de
alguns reajustes, destaca-se a elevação dos preços de bens
duráveis, principalmente móveis e linha branca, e a aceleração
de serviços, mantendo a atenção no monitoramento para o cenário
prospectivo. Somado a isso, os preços de alimentos não deverão
mostrar grande alívio nos próximos meses, tendo em vista que os
preços internacionais ainda não mostraram sinais de
arrefecimento, além das condições climáticas verificadas,
recentemente no Brasil, não tão favoráveis. Destarte, continuará
do ciclo de aperto monetário, que já começou com a primeira alta
da taxa de juros anunciada semana passada.
O IPCA-15 registrou alta de 0,76% em janeiro, acelerando ante
variação positiva de 0,63% apresentada no encerramento de
dezembro, e ficou acima do esperado por nós e pelo mercado
(+0,69%). Com isso, no acumulado dos últimos 12 meses, o IPCA
subiu 5,92%, frente à alta de 5,91% em dezembro.
A abertura por grupos de bens e serviços, conforme esperado,
revelou a aceleração do item de transportes para +0,89%, ante
0,29% em dezembro, refletindo o reajuste das tarifas de ônibus
urbanos. O grupo de alimentação e bebidas, por sua vez,
responsável pelas maiores contribuições nos índices anteriores,
registrou alta de 1,21%, ainda em patamar pressionado, mas
desacelerando em relação ao dezembro (+1,32%), movimento também
dentro das expectativas.
Além disso, conforme já mencionado, os destaques ficaram com o
grupo de bens duráveis, que reverteu a tendência de deflação
observada nos últimos meses, ao passar de -0,02% para 0,18%
neste IPCA-15; e com o item de serviços, que registrou alta
0,89%, acelerando em relação ao resultado de dezembro, de 0,60%.
De outro lado, pautada pela elevada liquidez global e pelas
perspectivas favoráveis em relação ao crescimento da economia
brasileira, a entrada de Investimento Estrangeiro Direto (IED),
que apresentou recorde mensal em dezembro, mais do que compensou
o déficit em conta corrente registrado em 2010, conforme dados
divulgados ontem pelo Banco Central. O IED acumulou no ano US$
48,4 bilhões, novo recorde histórico anual, ante US$ 25,9
bilhões acumulados em 2009, financiando totalmente o déficit em
conta corrente, que somou US$ 47,5 bilhões, o equivalente a 2,3%
do PIB no ano passado. Especificamente em dezembro, o saldo em
conta corrente registrou déficit de US$ 3,5 bilhões, quando a
conta de serviços foi deficitária em US$ 2,9 bilhões, acumulando
saldo negativo de US$ 31,1 bilhões em 2010 (ante US$ 19,2
bilhões registrados em 2009).
As principais fontes de pressão para o déficit de dezembro
ficaram por conta das viagens internacionais (-US$ 1,1 bilhão) e
do aluguel de equipamentos (-US$ 1,4 bilhão). Já a rubrica de
rendas registrou déficit de US$ 6,2 bilhões em dezembro,
acumulando saldo negativo de US$ 39,6 bilhões no ano (-US$ 33,7
bilhões em 2009). O destaque, nesse caso, ficou por conta das
remessas de lucros e dividendos, que alcançaram US$ 5,3 bilhões
em dezembro, acumulando US$ 30,4 bilhões em 2010 (ante US$ 25,2
bilhões no ano anterior). Já na conta capital e financeira, como
já mencionado, o destaque foi a forte entrada de investimento
direto estrangeiro (IDE), de US$ 15,3 bilhões, sendo que, desse
total, cerca de US$ 8 bilhões ingressaram para o setor de
extração de petróleo e gás natural; os demais US$ 7 bilhões
estão bem distribuídos em termos setoriais.
Para 2011, espero que o déficit em conta corrente encerre o ano
em patamar superior ao registrado no ano passado, chegando
próximo a 3,0% do PIB. Contudo, não acredito que o Brasil
enfrentará dificuldades relevantes para financiar esse déficit,
principalmente diante das perspectivas ainda favoráveis ao
crescimento doméstico e da liquidez abundante que tem
caracterizado o cenário internacional.
Já na indústria, a confiança do empresário industrial tem
permanecido em patamares elevados, desde novembro do ano
passado, corroborando as expectativas de que a indústria
mostrará resultados mais positivos neste início do ano, após
certa estagnação observada no último semestre do ano passado. O
Índice de Confiança do Empresário Industrial (ICEI) atingiu 62,0
pontos em janeiro, ficando praticamente estável em relação a
dezembro e 2,3 pontos acima da média histórica, conforme
divulgado ontem pela Confederação Nacional da Indústria (CNI). A
manutenção do otimismo do empresário no setor industrial foi
garantida pela melhora das expectativas, cujo indicador subiu 1
ponto para a marca de 65,4, enquanto que o índice de condições
atuais caiu 0,7 pontos em dezembro chegando a 55,1 em janeiro.
Por regiões, a confiança é maior no Nordeste e Centro-Oeste,
cujos índices atingiram 65,2 e 64,7 pontos, seguidos das regiões
Sul (60,0 pontos), Sudeste (60,5) e Norte (60,0), todos se
mantendo em patamares elevados.
No âmbito internacional, o Fundo Monetário Internacional (FMI)
revisou para cima sua estimativa para o PIB global em 2011, que
passou de 4,2% para 4,4% em relação a 2010, conforme divulgado
ontem em seu último relatório de Perspectivas Econômicas
Mundiais de janeiro. Este ajuste para cima foi motivado em
grande parte por melhores expectativas para os países
desenvolvidos, cuja projeção para 2011 passou de 2,2% para 2,5%.
Já no caso dos emergentes, a expectativa de crescimento do PIB
foi alterada em 0,1 p.p. para 6,5%. De qualquer maneira, está
contratada uma desaceleração do PIB para ambos os grupos, que
devem ter crescido 3,0% e 7,1%, respectivamente, em 2010. Mesmo
com essa melhora, caracterizada pela redução da diferença do
ritmo de crescimento entre as economias emergentes e
desenvolvidas, o FMI continuou sinalizando preocupações com a
estabilidade global, especialmente concentrada nos seguintes
pontos: (i) desemprego elevado; (ii) desequilíbrios fiscais e
financeiros na Zona do Euro; e (iii) riscos de sobreaquecimento
nas economias emergentes. Vale ainda reforçar que nossa visão
aproxima-se desta apresentada pelo FMI, com destaque para a
desaceleração das economias emergentes, decorrentes dos apertos
monetários que serão implementados ao longo deste ano para
controlar a aceleração da inflação diante das condições
aquecidas da demanda doméstica e das pressões vindas dos preços
das commodities.
Ao mesmo tempo, espero uma melhora – gradual, porém sustentada –
das economias desenvolvidas, principalmente nos EUA. Assim, as
estimativas apontam para um crescimento do PIB mundial de 4,3%
neste ano.
Nos EUA o mercado teve surpresa positiva com a confiança do
consumidor em janeiro, combinada com os sinais ainda favoráveis
vindos da indústria, sustentam expectativas boas com a economia
norte-americana.
O índice futuro da bolsa norte-americana e as principais bolsas
européias devem operar em alta, capturando o otimismo com os
bons resultados corporativos. Esta tendência, por sua vez, deve
se refletir no mercado doméstico, fazendo com que a bolsa
brasileira feche o dia em ligeira alta. No mercado de câmbio, o
dólar deve perder valor frente às demais moedas, movimento que
deve fazer com que o real se aprecie no pregão de hoje.
(*)
Thiago Flores é Administrador – EAESP-FGV, Mestre em Economia de
Negócios – EESP – FGV, Mestre em Finanças – IBMEC/INSPER –SP,
Consultor de empresas e CFO à FF Consult ®
www.ffconsult.com
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