Alimentação, Demanda & Forte expansão de Investimentos impulsionam alta do IPC

Thiago Flores 

O IPC-FIPE referente à segunda semana de janeiro registrou alta de 0,86% - resultado superior tanto às do mercado -, em rápida aceleração em relação ao resultado registrado na primeira semana do mês (0,61%). Assim como esperado, a continuidade da incorporação dos reajustes de tarifas de ônibus urbano e educação foram os principais responsáveis pelo novo movimento de alta: o grupo transportes subiu de 0,77% para 1,66%, ao passo que educação acelerou de 0,92% para 2,29%, no período. Também em trajetória de alta, o grupo despesas pessoais mostrou alta de 0,37% para 0,61%, enquanto que alimentação – após ensaiar um período de descompressão – voltou a acelerar (1,54%). No sentido contrário, destaque para vestuário (-0,03%), seguindo a sazonalidade do período. Para as próximas divulgações ainda podemos esperar resultados pressionados desse índice, com os mesmos vetores continuando à influenciar o resultado geral.

Por outro lado, a forte expansão dos investimentos, combinada com as condições favoráveis da demanda doméstica, motivou a expansão de 7,6% da demanda das empresas por crédito em 2010, em relação a 2009, em linha com a retomada das concessões de crédito à pessoa jurídica, conforme dados divulgados ontem pela Serasa/Experian. Esse resultado positivo se deu de maneira generalizada entre as regiões do País, com destaque para a região Nordeste, cujo incremento foi de 10,7% no ano, seguida dos avanços de 9,8% e 8,2% verificados no Centro Oeste e Norte, nesta ordem; já as regiões Sudeste e Sul, por sua vez, apresentaram o menor ritmo de expansão, de 6,8% e 6,0% respectivamente. Por porte de empresa, vale destacar o crescimento de 8,5% da demanda das micro e pequenas empresas, enquanto as grandes empresas expandiram sua demanda em 8,2%, ao passo que as médias recuaram 7,9%. Além disso, em dezembro, a demanda apresentou elevação interanual de 11,7%, puxada da região Sul. Daqui para frente, acredito que o crédito continuará em expansão, já que a atividade doméstica continuará aquecida, em especial os investimentos, a despeito do ciclo de aperto monetário que deverá começar nesta semana.

O saldo comercial mostrou recuperação na segunda semana de janeiro em relação ao fraco desempenho da primeira semana, quando foi registrado déficit de US$ 486 milhões. Esta reversão foi explicada pela ampliação bastante disseminada das exportações enquanto as importações totais mostraram expansão mais modesta, compensadas pela queda das compras de petróleo. Com isso, a balança comercial registrou superávit de US$ 496 milhões na semana passada, entre os dias 10 e 17 deste mês, levando a balança a acumular saldo positivo de US$ 10 milhões neste ano, conforme divulgado ontem pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior. Alterando a tendência verificada ao longo do ano passado marcada pela liderança da expansão dada pelas vendas de produtos básicos, a abertura setorial mostrou que a categoria que mais cresceu passou a ser a de semimanufaturados (44,9% na comparação interanual) impulsionada pelo crescimento nas vendas da celulose e semimanufaturados de ferro/aço; ainda assim, a categoria de básicos se manteve forte, crescendo 36,3% na comparação interanual, com destaque para as vendas de minério de ferro, carne de frango, café em grão, farelo de soja, milho em grãos e soja em grãos; na direção contrária, a categoria de manufaturados registrou queda de 3,4%. Já as importações totalizaram US$ 3,387 bilhões no mesmo período, tendo crescido 15,9% em relação à média diária do mesmo mês do ano passado. Dentre as categorias, na comparação interanual, destaque para a compra de leite e derivados (aumento de 192%), adubos e fertilizantes (que se expandiu 89,0%) e de alumínios e obras (que cresceu 70,2%). Para 2011, mantemos nossa expectativa de que o saldo comercial registre superávit de US$ 14,1 bilhões, garantido pelo crescimento de 24% das exportações e de 30% das importações em relação a 2010.

Reforçando as expectativas bastante favoráveis para o ingresso de investimentos estrangeiros diretos (IED) em 2011, os dados divulgados ontem pela Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD) confirmam que, de fato, a importância do Brasil como destino de investimentos estrangeiros tem se elevado em relação aos demais países. O investimento estrangeiro direto total recebido pelo País somou US$ 30,2 bilhões em 2010, de acordo com a instituição, o que representou um crescimento de 16,3% em relação a 2009, permitindo que o Brasil se posicionasse entre os dez maiores destinos de investimentos pela primeira vez na história, superando a posição de 13º lugar alcançada em 2009. Para título de comparação, os cinco maiores destinos foram: EUA, China, Hong Kong, França e Bélgica. Esse bom desempenho também foi acompanhado pelo grupo de países emergentes, que recebeu 53% do total de IED no ano passado, o que representou um crescimento de 10% em relação ao montante de 2009. Para este ano, considerando o destaque da economia brasileira verificado no ano passado e a manutenção das condições favoráveis e atrativas da economia doméstica, reforçamos o cenário de entrada de US$ 45 bilhões em investimentos estrangeiros diretos no Brasil, que deverão exercer papel importante como fonte de financiamento do déficit em conta corrente esperado de US$ 68,3 bilhões.

Hoje as bolsas européias e o índice futuro da bolsa norte-americana (S&P) devem operar em alta, enquanto o dólar deve perder valor frente às demais moedas. Estes movimentos refletem, em parte, a expectativa positiva para a divulgação de alguns resultados corporativos nos EUA e em parte por conta da surpresa positiva com a pesquisa ZEW de expectativas econômicas na Alemanha e na Zona do Euro. Esta melhora na percepção de risco deve fazer com que a bolsa brasileira feche o pregão em alta, revertendo a queda verificada ontem, ao passo que o real deve sofrer ligeira apreciação frente ao dólar.


 
(*) Thiago Flores é Administrador – EAESP-FGV, Mestre em Economia de Negócios – EESP – FGV, Mestre em Finanças – IBMEC/INSPER –SP, Consultor de empresas e CFO à FF Consult ®
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