Do Hiato do PIB-Brasil à Inflação Chinesa
Thiago Flores
A divulgação do PIB referente ao terceiro trimestre de 2010
reforçou o diagnóstico de que a demanda doméstica está bastante
aquecida, principalmente no que diz respeito aos componentes de
consumo e investimento. A absorção doméstica cresceu 9% nos
últimos quatro trimestres ao passo que o PIB ficou em 7,5%.
Dentre os componentes da demanda, o investimento foi o que mais
mereceu destaque, pois desde a crise, sua recuperação foi rápida
e expressiva, de tal forma que o nível de investimentos no
terceiro trimestre superou em 7,4% o do período pré-crise.
Com relação ao hiato do produto, o resultado do terceiro
trimestre foi um alento à sua convergência. Por um lado, o forte
resultado do investimento eleva o crescimento potencial e, por
outro, o baixo crescimento na margem provocou um pequeno
fechamento dessa medida. Ou seja, houve um estreitamento da
diferença entre o nível de crescimento efetivo do PIB e o
crescimento potencial da economia. Certamente, este é um pequeno
alento às preocupações com relação à trajetória da inflação.
Entretanto, para o início de 2011, as medidas macroprudenciais
adotadas recentemente pelo Banco Central possuem potencial para
provocar uma maior desaceleração no consumo doméstico,
combinadas com a expectativa de um aperto fiscal mais intenso e
os efeitos defasados da elevação dos juros reais nos últimos
meses. Esses são os principais vetores por trás da acomodação
que esperamos para o PIB em 2011 que, de todo modo, ainda
representará uma expansão bastante razoável, com destaque
marcado para os investimentos.
Segundo relatório Focus, dentre as projeções de mercado para as
principais variáveis macroeconômicas, o destaque ficou novamente
para o ajuste das expectativas para a inflação de curto prazo,
divulgado há pouco pelo Banco Central, referente à semana até 10
de dezembro. A expectativa para o IPCA de 2010 passou de 5,78%
para 5,85%, enquanto que para 2011 as expectativas se
estabilizaram em 5,21%. As projeções para o PIB de 2010
apresentaram leve alta, de 7,54% para 7,61%, enquanto que, para
2011, ficaram em 4,5%. Para a taxa de câmbio de final de
período, as expectativas para 2010 e 2011 ficaram em R$/US$ 1,70
e R$/US$ 1,75, nesta ordem. Por fim, as projeções para a meta da
taxa Selic, ao final de 2010 e 2011, continuaram inalteradas em
10,75% e 12,25%, respectivamente.
Divulgado pela FGV, a primeira prévia do IGP-M de dezembro
apresentou alta de 0,83%, um pouco abaixo do esperado pelo
mercado (0,93%) e desacelerando rapidamente em relação ao
observado nos últimos IGPs divulgados, que estavam registrando
altas superiores a 1%. Nessa primeira prévia do mês, destaque
para a rápida desaceleração do IPA agrícola (1,39%), responsável
por boa parte do arrefecimento do índice. O grupo foi puxado
pela desaceleração dos preços da soja, algodão e carnes bovinas,
além da queda dos preços do feijão. Por outro lado, o IPA
industrial voltou a surpreender, com alta de 0,83%. É verdade
que boa parte desse resultado foi influenciada por altas dos
produtos alimentícios, porém outros grupos também vêm
pressionando, como artigos de vestuário, calçados, além da
deflação menor dos preços de minério de ferro. No varejo, o IPC
apresentou alta de 0,69%, com forte influência de alimentação e
vestuário. Por fim, o INCC apresentou alta de 0,28%, mostrando
pequena desaceleração na margem.
O emprego industrial permaneceu estável em outubro, em termos
dessazonalizados, após queda de 0,1% em setembro, conforme
divulgado na última sexta-feira pela Pesquisa Industrial Mensal
de Emprego e Salário (PIMES) do IBGE. No mês, o emprego na
indústria de transformação apresentou alta de 0,1%, enquanto
houve queda de 1,1% na indústria extrativa, ambos na margem. Na
comparação com o mesmo mês de 2009, a ocupação industrial
apresentou alta de 4,2%, sendo que no ano o emprego neste setor
acumula alta de 3,4%. Ao mesmo tempo, o número de horas pagas
recuou em 0,8% em relação a setembro, enquanto que o desempenho
dos rendimentos continua forte, haja vista a expansão real de
0,4% da folha de pagamento na margem no período, em linha com as
demais pesquisas que também têm mostrado o forte crescimento da
renda.
No que tange o cenário internacional, o destaque da bateria de
dados relativos à economia chinesa, divulgados no último sábado,
ficou novamente para a manutenção da inflação em alta, que não
foi só impulsionada por alimentação, mas refletiu também a
demanda doméstica aquecida. De fato, os dados de atividade
vieram fortes, sugerindo um crescimento do PIB entre 9 e 9,5% no
quarto trimestre. De forma geral, esses resultados não alteram
nossa avaliação de que o controle da inflação permanecerá como a
prioridade do governo chinês, o que deverá garantir um
crescimento em torno de 9,0% em 2011; mas, para tanto, nos
próximos meses, os anúncios constantes de medidas continuarão em
cena, concentrando as atenções do mercado, e, portanto,
segurando as expectativas em relação à economia chinesa. Diante
disso, a pressão tem crescido para um aperto mais forte da
política monetária, incluindo a alta da taxa de juros, além da
subida do compulsório e de um controle mais rígido das
concessões de crédito.
O índice futuro da bolsa norte-americana (S&P) e as bolsas
européias devem operar em alta enquanto o dólar se deprecia
relativamente às demais moedas. Os mercados apresentam relativo
bom humor, motivados por um menor pessimismo quanto à direção da
política monetária que vem sendo adotada na China e também em
função de certa expectativa positiva com os dados da economia
norte-americana, que serão divulgados ao longo da semana. Espero
que o Brasil siga a tendência observada nos mercados
internacionais e a Bovespa feche em alta e o real se aprecie
frente ao dólar no pregão de hoje.
(*)
Thiago Flores é Administrador – EAESP-FGV, Mestre em Economia de
Negócios – EESP – FGV, Mestre em Finanças – IBMEC/INSPER –SP,
Consultor de empresas e CFO à FF Consult ®
www.ffconsult.com
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