Da Espanha à China: O caminho por onde passa a economia do Brasil

 Thiago Flores

Nas últimas semanas estamos vivenciando preocupações com os países periféricos da Zona do Euro após um bom período de estabilidade e por conseqüência, tranqüilidade. A crise nos países periféricos europeus está preocupando o mercado com seus novos pedidos de ajuda à União Européia (UE) e ao Fundo Monetária Internacional (FMI), com riscos de que outros resgates ao fundo sejam adicionados.

Macroeconomicamente falando, para a solução dessa crise, Irlanda, Portugal e Espanha necessitam de ajustes fiscais de resultado a médio e longo prazo. Ficam em aberto questões como capacidade econômica de executar e planejar estes ajustes.  Destaca-se um passado da Espanha favorável de pagamento e de sucesso em ajustes em casos semelhantes, o que dilui seu risco bancário diante dos outros países citados.

Ressalto que estes países se defrontam com um fraco crescimento e isso vem de encontro à necessidade dos ajustes, visto que potencializa o efeito de retração, podendo levar a uma recessão. Destarte, modifica-se a percepção otimista de recuperação rápida do mercado global, mas não a expectativa de superação em si.

Dentro deste cenário, a China continua expandindo sua economia, PIB, importações (dentro da política de internacionalização de empresas) e os investimentos chineses, em sua maioria investimentos diretos (FDIs), tendem a financiar nosso déficit em transações correntes que podem chegar a mais de US$ 25 bilhões nos próximos mese.

Nota-se atualmente o aumento do fluxo de capitais chineses que irá se somar ao aumento das transações comerciais que levaram a China a ocupar o principal destino das exportações brasileiras.

 O que os Chineses almejam afinal? Imensas reservas de recursos naturais, commodities em especial, fazendo uso de suas reservas internacionais acumuladas agora destinadas à aquisição de ativos, em suma, ativos reais.

De acordo com as últimas variáveis de mercado dentro do cenário brasileiro, podemos esperar o aumento do déficit em conta-corrente devido ao desalinhamento competitivo entre a moeda local e outras moedas, desalinhamento este subproduto de um cambio valorizado. Por outro lado há uma previsão de demanda por grandes investimentos, dentre eles elencamos o pré-sal, Copa do Mundo e Olimpíadas.

A isso aliamos a falta de efetividade em relação à política econômica da comercialização de títulos públicos já que investidores tem se deslocado a outros investimentos com maior relação de risco-retorno, como a poupança. Por isso do governo Dilma já fala em modificar a dinâmica de rentabilidade da poupança brasileira.

Em face disso, fica claro e notório que necessitamos de uma nova fonte de financiamento para o crescimento brasileiro. Parece então que aparentemente o fortalecimento da relação China-Brasil se encaixa perfeitamente.

No entanto esta relação implica em uma dicotomia, já que se por um lado financia o déficit da balança de pagamentos, existem diversos interesses nacionais em conflito justificados pelo provável acesso chinês a setores estratégicos, e que por sua vez, podem comprometer a competitividade interna e a soberania nacional.  Eis um paradigma com múltiplas variáveis que voltaremos a discutir em breve.
 

(*) Thiago Flores é Administrador – EAESP-FGV, Mestre em Economia de Negócios – EESP – FGV, Mestre em Finanças – IBMEC/INSPER –SP, Consultor de empresas e CFO à FF Consult ®
www.ffconsult.com
ffconsult@ffconsult.com

 

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