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Selic sobe e China continua crescendo contra sua vontade macroeconômica!

Thiago Flores 

O Comitê de Política Monetária (Copom), como meus leitores já sabiam, iniciando novo ciclo de elevação da taxa Selic, aumentou em 50 pontos base, levando-a para 11,25% ao ano, “dando início a um processo de ajuste da taxa básica de juros, cujos efeitos, somados aos de ações macroprudenciais, contribuirão para que a inflação convirja para a trajetória de metas.”

Esse curto comunicado, em linha com o último Relatório de Inflação (RI), explicita que o processo de aperto da política monetária não está restrito à utilização apenas do instrumento taxa de juros. De fato, o colegiado espera que as medidas de caráter macroprudencial implementadas no começo do mês passado (elevação do compulsório sobre depósitos à vista e a prazo e aumento dos requerimentos de capital para operações de empréstimo bancário a pessoas físicas com prazos superiores a 24 meses) surtam efeito.

O comunicado, por si só, corrobora a percepção de que há uma mudança no mix da política econômica no desafio de gerenciar os riscos provenientes de choques de preços de commodities agrícolas em um contexto no qual a demanda cresce em ritmo superior ao da oferta. Tenho defendido que, além de juros e medidas de caráter macroprudencial, o terceiro componente desse novo mix é o ajuste fiscal, ainda não divulgado. Avalia-se que quanto maior ele for e quanto maiores forem os impactos das ações macroprudenciais, menor será a carga de juros. Em princípio, espero outras duas altas da Selic, também de 50 pontos base, levando-a a 12,25% na reunião de abril.

O fluxo cambial ficou positivo em US$ 5,185 bilhões na primeira quinzena de janeiro, de acordo com dados divulgados ontem pelo Banco Central. O resultado é decorrente do ingresso líquido de US$ 3,968 bilhões na conta financeira e da entrada líquida de US$ 1,217 bilhões na conta comercial, com exportações e importações que somaram US$ 7,366 bilhões e US$ 6,149 bilhões, respectivamente. Somente na segunda semana, o fluxo comercial foi superavitário em US$ 740 milhões e o fluxo financeiro foi positivo em US$ 345 milhões, resultando em uma entrada líquida de US$ 1,085 bilhão no período.

No âmbito internacional, o PIB da China cresceu 10,3% em 2010, sendo que a expansão de 9,8% registrada no quarto trimestre sugere um crescimento na margem de 12%, em termos anualizados e dessazonalizados, acelerando ante o terceiro trimestre. Esse resultado, somando-se aos indicadores de vendas no varejo, indústria e investimentos, reforça a avaliação de que a atividade está crescendo em ritmo forte – acima do potencial. Ao mesmo tempo, o alívio temporário da inflação, que passou de 5,1% em novembro para 4,6% em dezembro, não deverá se manter. Ou seja, o balanço atividade-inflação continua exigindo mais aperto, que poderá se concentrar de forma mais expressiva no primeiro trimestre deste ano, com uso de diversos instrumentos monetários, pendendo mais para os quantitativos (compulsório e controle do crédito). Além disso, continua-se acreditando que o crescimento continua como prioridade na condução da política econômica, ainda que considere-se que o governo não irá tolerar a inflação acelerando, mas certamente vai acomodar em um patamar mais elevado, para não sacrificar crescimento.

De maneira resumida, chamo atenção para os seguintes indicadores referentes a dezembro de 2010, e ao quarto trimestre, no caso do PIB: (i) o PIB chinês registrou expansão de 9,8% quando comparado com o mesmo período do ano anterior, acumulando crescimento de 10,3% em 2010; (ii) a produção industrial avançou 13,5% na comparação interanual, em linha com o esperado, após elevação de 13,3% em novembro; (iii) as vendas no varejo mantiveram ritmo forte de alta, ao crescerem 19,1%, acima das expectativas (18,7%); (iii) o índice de preços ao consumidor, por sua vez, mostrou descompressão, ao registrar alta interanual de 4,6% em dezembro, em linha com as expectativas, ante 5,1% em novembro, em reflexo à desaceleração dos preços de alimentos (que passaram de 11,7% para 9,6%); (iv) na mesma direção, os preços ao produtor se moderaram para 5,9% de 6,1% em novembro; e, por fim, (v) os investimentos em ativos fixos revelaram trajetória bastante favorável em 2010, acumulando alta de 24,5%, embora o mercado esperasse crescimento de 25,0%. Por enquanto, para 2011, o crescimento de 9% do PIB chinês é piso enquanto que a inflação ao consumidor rodará a 5% no primeiro semestre deste ano e a 4% na segunda metade.

As bolsas internacionais devem operar no campo negativo, enquanto que as principais commodities devem recuar e o dólar deve ganhar valor frente às demais moedas. Esta reação negativa dos mercados acaba refletindo as preocupações em relação à intensidade do aperto monetário na China, considerando o resultado mais forte dos indicadores de atividade econômica e a inflação ainda pressionada divulgados nesta madrugada. Este cenário deve se refletir no mercado doméstico, fazendo com que a bolsa feche o dia em queda e o real perca valor frente ao dólar. Por fim, no mercado doméstico de juros futuros, dada a fraca agenda doméstica e a confirmação do início do ciclo de aperto monetário (com anúncio da subida da taxa de juros ontem pelo Banco Central), espera-se abertura em todos os vencimentos.
 
(*) Thiago Flores é Administrador – EAESP-FGV, Mestre em Economia de Negócios – EESP – FGV, Mestre em Finanças – IBMEC/INSPER –SP, Consultor de empresas e CFO à FF Consult ®
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